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Budistas descrevem massacre de minoria muçulmana em Mianmar.

Postada em 10/02/2018 10:22:02 -
Por: JNHOJE

 

Dez muçulmanos da etnia rohingya assistiram a seus vizinhos budistas cavarem uma cova. Logo depois, na manhã de 2 de setembro de 2017, os dez foram executados. Ao menos dois, a golpes de facão. Os demais foram mortos a tiros por soldados de Mianmar, disseram duas pessoas que ajudaram a cavar a cova.

"Uma cova para dez pessoas", disse Soe Chay, 55, soldado reformado da comunidade budista de Inn Din, que testemunhou as execuções. "Alguns ainda emitiam ruídos quando eram enterrados. Os outros estavam mortos."

As execuções representam mais um episódio sangrento na violência étnica no norte do Estado de Rakhine, oeste de Mianmar. Quase 690 mil rohingyas fugiram e cruzaram a fronteira para Bangladesh desde agosto. Em outubro, não restava nenhum dos 6.000 rohingyas que um dia viveram em Inn Din.

Os rohingyas acusam o Exército de incêndios criminosos, estupros e execuções, com o objetivo de exterminar sua presença neste país majoritariamente budista de 53 milhões de habitantes.

A ONU diz que o Exército pode ter cometido genocídio, e os EUA definiram as ações das Forças Armadas como limpeza étnica. Mianmar diz que o que ocorreu foi uma "operação de limpeza", em resposta legítima a ataques de insurgentes rohingyas.

Até agora, os relatos sobre a violência em Rakhine vinham apenas das vítimas. A reconstituição da Reuters incorpora entrevistas com budistas, que confessaram ter incendiado casas dos rohingyas e matado muçulmanos.

O relato representa a primeira implicação direta das Forças Armadas e da polícia paramilitar em execuções, com base em depoimentos de integrantes dessas forças.

A investigação da Reuters em Inn Din levou as autoridades de Mianmar a deter em dezembro dois repórteres da agência, os birmaneses Wa Lone e Kyaw Soe Oo, sob suspeita de terem obtido documentos confidenciais.

A Procuradoria pediu indiciamento sob a Lei de Segredos Oficiais de Mianmar, que prevê até 14 anos de prisão.

VIZINHOS ARMADOS
Em 27 de agosto, cerca de 80 soldados da 33ª Divisão de Infantaria Leve de Mianmar chegaram a Inn Din. O oficial no comando convidou aldeões a participar das operações de segurança.

O grupo construiu postos de vigia na parte budista, e seus membros se revezavam na vigilância. Eram bombeiros, professores, estudantes e desempregados, úteis para os militares por conhecerem bem a geografia local, disse Maung Thein Chay, administrador budista de Inn Din.

A maior parte do grupo, de cerca de 90 integrantes, se armava com facões e bastões, alguns com armas de fogo. Parte deles usava uniforme verde, em estilo militar.

Nos dias seguintes, soldados, policiais e aldeões budistas queimaram a maior parte das casas rohingyas de Inn Din. "Se tiverem um lugar para viver, comida para comer, poderão fazer mais ataques", disse um policial.

Soldados e paramilitares participaram das operações vestidos à paisana. Se a mídia identificasse o envolvimento das forças de segurança, explicou um policial, "teríamos sérios problemas".

Um assistente médico, Aung Myat Tun, 20, disse que participou de várias operações. Era fácil incendiar as casas dos muçulmanos por causa dos tetos de palha. Bastava atear fogo à beirada, disse. "Os líderes das aldeias enrolavam trajes de monges em um bastão, como uma tocha, e o embebiam em querosene. Não podíamos levar celulares. A polícia dizia que nos mataria se apanhasse algum de nós tirando fotos."

Depois que os rohingyas fugiram, os budistas roubaram seus animais. Bens mais valiosos, como motos e gado, foram recolhidos pelo 8º Batalhão de Polícia de Segurança e vendidos, disse Chay.

VÍTIMAS
Em 1º de setembro, centenas de rohingyas de Inn Din estavam em um acampamento provisório em uma praia perto da aldeia, entre eles os dez que seriam executados.

Cinco dos homens Mohammed Dil, 35, Mohammed Nur, 29, Ullah Shoket, 35, Habizu, 40, e Ahmed Shaker, 45 eram pescadores ou peixeiros. Hashim Abul, 25, tinha uma loja de redes de pesca e peças mecânicas. Abdul Majid, 45, oito filhos, vendia nozes de areca. Abulu, 17, e Ahmed Rashid, 18, eram estudantes; Abdul Malik, 30, era professor de islamismo.

Segundo comunicado do Exército de dez de janeiro, as forças de segurança haviam enviado uma unidade a uma área costeira na qual os militares "foram atacados por cerca de 200 bengalis", armados de bastões e espadas. O texto diz que "as forças de segurança dispararam para o alto e os bengalis fugiram. Dez deles foram detidos".

Testemunhas negam que o Exército tenha sofrido um ataque em Inn Din.

Malik havia voltado ao povoado para buscar bambu e comida. Ao retornar, sete soldados e aldeões budistas armados o seguiam. Malik andava tropegamente, com sangue escorrendo da cabeça.

Os militares apontaram as armas para os rohingyas e ordenaram que se agrupassem.

"Ordenaram que meu marido e outros homens se aproximassem", disse Rehana Khatun, 22, mulher de Nur. "Disseram que tinham de ir a uma reunião. Pediram que os outros voltassem à praia."

Os soldados encarceraram os rohingyas em uma escola. Uma foto mostra os dez ajoelhados na grama. Naquela noite, eles receberam uma última refeição, com carne bovina, e roupas limpas.

Em 2 de setembro, eles foram levados a um descampado perto de um cemitério budista. De joelhos, foram fotografados de novo e interrogados sobre o desaparecimento de um agricultor budista local chamado Maung Ni.

A Reuters não conseguiu determinar o que houve com Maung Ni. Segundo vizinhos budistas, ele sumiu após sair de casa em 25 de agosto. O Exército atribuiu a morte a "terroristas bengalis".

Soe Chay disse que os filhos de Maung Ni foram convidados a desferir os primeiros golpes. O primeiro decapitou Malik. O segundo atingiu outro prisioneiro no pescoço. "Depois que os irmãos os retalharam, o pelotão de fuzilamento disparou. Dois a três tiros em cada um."

Em outubro, moradores de Inn Din mostraram à Reuters a área onde as execuções teriam ocorrido. Os repórteres acharam uma trilha até um terreno remexido onde se viam muitos ossos, alguns com restos de roupas e cordas como as vistas nos pulsos dos prisioneiros nas fotografias.

O líder budista de Rakhine deu à Reuters um foto que mostra a cena pós-execução. Nela, os dez rohingyas estão usando as mesmas roupas que na foto anterior e continuam atados uns aos outros pela mesma corda amarela, com sangue em volta. Malik parece decapitado; Abulu tem uma ferida no pescoço.

Em Inn Din, o líder budista explicou por que revelou à Reuters as provas: "Não quero que volte a ocorrer".

Questionado sobre as provas obtidas pelos jornalistas, Zaw Htay, porta-voz do governo, disse que não faria negativas genéricas.

Se houver "provas primárias fortes e confiáveis" de abuso, o governo investigará, disse. "Se constatarmos que são verdadeiras e houve violação, tomaremos as medidas necessárias conforme a lei."

 

Fonte: Folhapress

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